BeyondTheLines | O Scanning no Futebol – CoachesMinds Talks
Introdução
O futebol de alto nível exige muito mais do que técnica e condição física. O componente cognitivo-perceptivo — especialmente o que chamamos de varredura (ou scanning) — é cada vez mais reconhecido como diferencial entre bons e excelentes jogadores. No estudo de Jordet et al., os autores definem varredura como o movimento ativo da cabeça/olhos em que o jogador desvia o olhar da bola para coletar informações do ambiente (colegas, adversários, espaço) antes de receber ou agir com a bola.
Foi observado que jogadores que escaneavam mais frequentemente tinham probabilidade levemente maior de completar passes.
Enquanto tal efeito é “pequeno” estatisticamente, para um treinador de elite isso representa um componente de vantagem que pode ser sistematizado no treino e na cultura da equipe.
Siga abaixo minha observação, onde este artigo vai:
- Aprofundamento nos principais achados do estudo;
- Refletir sobre a implicação prática para cada posição em campo (goleiro, zagueiro, lateral, meio-campo, atacante);
- Discutir como esse comportamento impacta o desempenho coletivo e como incorporá-lo em seu modelo de jogo.
O estudo conduzido por Jordet e colaboradores investigou a relação entre a varredura visual (scanning) e o desempenho técnico-decisional ao longo de uma temporada completa da Premier League inglesa — o que confere relevância ecológica ao fenômeno observado, pois trata-se de dados coletados em contexto real de elite e não em laboratório.
Tópico 1: Introdução. Os achados do artigo e a importância do Scanning no Futebol
Frequência média de varreduras antes da recepção
Os jogadores analisados realizaram, em média, 0,44 varreduras por segundo nos 10 segundos anteriores ao recebimento da bola.
Isso significa que, na elite competitiva, o ato de olhar ao redor não é ocasional, mas sistemático e quase rítmico, sugerindo que o scanning é um componente cognitivo-perceptivo automatizado e associado à preparação pré-ação.
A varredura não surge no momento da pressão — ela é construída antes dela.
Essa antecipação permite ao atleta reduzir o tempo de processamento quando a bola chega e acelerar a tomada de decisão.
Jogadores centrais escaneiam mais que jogadores de lado
O estudo evidenciou que meias centrais e zagueiros centrais mostraram os maiores índices de varredura, enquanto laterais e extremos tiveram índices inferiores.
Isso reflete a lógica estrutural do jogo:
- Regiões centrais apresentam maior densidade de oposição, exigindo maior consciência espacial.
- Quanto mais central o espaço, maior o número de linhas de passe, pressões potenciais e variáveis contextuais — logo, maior necessidade de informação antes da ação.
Portanto, a elite confirma na prática:
Quem joga por dentro precisa ver mais do que quem joga por fora.
A varredura se adapta ao contexto de pressão
Quando o adversário está longe, os jogadores escaneiam mais; quando a pressão aproxima, a varredura diminui.
Ou seja, existe uma autorregulação cognitiva do olhar: a priorização passa da exploração para o controle da bola e do corpo.
Esse achado reforça que o scanning é:
- proativo (antecipação),
- contextual (sensível ao ambiente), e
- inteligente (adaptativo).
No treino de alta performance, portanto, não basta contar quantas vezes se olha — é necessário compreender quando e por quê se olha. A qualidade da ação é importantíssima, ou seja (A qualidade aqui fala mais alto do que a quantidade), pois EXISTE MUITA DIFERENÇA ENTRE VER E OBSERVAR.
Distribuição espacial influencia o comportamento visual
A maior incidência de varredura ocorreu em zonas defensivas e centrais, diminuindo conforme os atletas se aproximavam do gol adversário.
Isso revela um ponto conceitual essencial:
- Nas fases de construção e início da progressão, o jogador precisa formular o panorama.
- Nas zonas de criação e finalização, a atenção tende a encurtar para execução técnica e tomada de decisão rápida.
Em outras palavras: primeiro vê, depois faz; perto do gol, faz e reage.
Relação entre varredura e eficácia de passe
O estudo encontrou uma relação positiva e estatisticamente significativa, embora moderada, entre maior volume de varreduras e maior probabilidade de completar passes sob pressão.
Isso derruba uma narrativa muito comum:
“Ver o jogo melhora a técnica do passe?”
Sim, melhora — porém a técnica segue sendo determinante.
A varredura funciona como amplificador da qualidade técnica e decisional, não como substituta da habilidade.
Para treinadores de elite, isso tem uma implicação direta:
• Treinar visão sem treinar técnica gera observadores que erram passes.
• Treinar técnica sem visão gera jogadores habilidosos que tomam decisões pobres.
• Treinar técnica + varredura = jogadores de decisões inteligentes.
Scanning é uma habilidade treinável e diferenciadora
Embora pequena no efeito estatístico global, a diferença produzida pela varredura:
- é acumulativa ao longo do jogo e da temporada,
- reduz erros decisivos em zonas críticas,
- aumenta o ritmo e qualidade do jogo coletivo,
- e, sobretudo, separa atletas medianos de atletas dominantes no tempo e no espaço.
No futebol de alta performance, onde margens são mínimas, essa vantagem cognitiva é decisiva.
Pequenas vantagens cognitivas geram grandes diferenças estratégicas.
Síntese aplicada aos treinadores
| Achado | Implicação prática |
|---|---|
| Jogadores de elite escaneiam alto e ritmicamente | Implementar rotinas cognitivas sistemáticas no treino |
| Posições centrais demandam maior varredura | Individualizar expectativas e cargas perceptivas |
| Scanning piora sob pressão | Treinar scanning antes da recepção e antecipação |
| Acontecem menos varreduras perto do gol | Treinar eficiência decisional em espaços curtos |
| Aumenta a precisão do passe | Associar visão + técnica em exercícios integrados |
| Efeito moderado, porém real | Modelo de jogo inteligente maximiza impacto |
Resumindo os achados do estudo
Principais destaques:
- Em média, os jogadores escanearam ~0,44 vezes por segundo nos 10 segundos antes de receberem a bola.
- Há diferença de frequência de varredura segundo a posição: jogadores centrais (ex: meio-campistas centrais, zagueiros) escanearam mais que alas ou atacantes.
- Pressão adversária afeta: maior distância para o defensor (menos pressão) → maior frequência de varredura; em situações de alta pressão (adversário muito próximo) → varredura reduzida.
- Localização no campo também importa: em zonas centrais defensivas a varredura era maior; nas zonas de ataque e beiradas caía.
- A varredura teve uma relação positiva com a probabilidade de completar passes (mesmo controlando por dificuldade de passe).
- Contudo, o efeito é relativamente pequeno: a habilidade técnica e a dificuldade do passe (contexto) eram variáveis mais potentes que a varredura.
Em suma: escanear mais frequentemente ajuda, mas não substitui técnica ou contexto favorável. Para uma equipe de alto rendimento, esse comportamento pode ser uma das “margens” que fazem diferença.
Tópico 2: A importância da varredura por posição
A seguir, uma reflexão aplicada para cada posição, considerando os achados do estudo e a sua equipe que, como sabemos, procura atuar com modelo ofensivo, pressão alta e uso de informação antecipada.
Goleiro
Embora o estudo não foque especificamente em goleiros, o conceito de varredura é igualmente crítico para esse jogador.
- O goleiro precisa constantemente “ler” o perigo, posicionamentos ofensivos adversários, cobertura da sua linha defensiva e possibilidades de saída de bola.
- Um goleiro que escaneia bem tem mais chance de antecipar ações — interceptar passes, acionar rapidamente saída de bola ou orientar a equipe de defesa.
- No contexto de modelo de jogo ofensivo, o goleiro deve escanear antes de reposições ou saídas rápidas, escolher o momento de jogar.
- Treino sugerido: em situações de saída rápida de bola, inserir micro-tarefas em que o goleiro, antes da reposição, faz varredura rápida (2-3 segundos) das plataformas à sua frente, e depois escolhe entre diferentes alvos de passe.
Zagueiros Centrais
O estudo aponta que zagueiros centrais estão entre os que mais escaneiam.
- Por estarem em zona central, rodeados por espaço e adversários, têm maior exigência de antecipação e leitura – verificar corredores, cobertura, apoio dos laterais.
- Nos modelos atuais (em bloco alto ou médio), o zagueiro precisa olhar não só para o atacante, mas “atrás” e “ao redor”: antecipar segunda bola, lançar profundidade ou ativar transição ofensiva.
- A tarefa de escanear permite, antes de receber a bola, definir a melhor opção: progressão, jogo em largura, ou saída rápida.
- Sugestão de tópico de treino: em rondas defensivas + transição ofensiva, instigar o zagueiro a realizar varredura de 360° antes da recepção, e condicionar a saída pelo pivô se ele tiver escaneado > 2 vezes nos 4 segundos anteriores.
Laterais e Alas
O estudo mostra que jogadores mais laterais escaneiam menos que os centrais.
- Mesmo assim, para um lateral ativo no ataque, a varredura ainda é vital: verificar apoio interior, apoios, passe de ruptura e cobertura adversária.
- Para alas, o desafio é maior em transição: devem escanear tanto no momento ofensivo (antes de receber) quanto no momento defensivo (quando adversário ataca seu corredor).
- Alinhar esse tipo de varredura com o seu modelo de ataque (movimentos de profundidade, passes de ruptura) aumenta a eficácia dos momentos de apoio e envolvimento ofensivo.
- Treino sugerido: em exercício ofensivo com alas + meia apoiando, no momento de “receber no corredor”, o ala realiza varredura de pelo menos duas varreduras antes do passe. Se não fizer, só poderá jogar para trás.
Meio-Campo (Centrais e Meias Ofensivos)
Aqui reside talvez o impacto mais direto dos achados: meio-campistas centrais escanearam mais que qualquer outra posição.
- Eles são o hub da informação no time: ligação entre defesa e ataque, leitura de transição, escolha de jogo. A varredura lhes permite visitar rapidamente o panorama ofensivo, identificar ruptura, atravessamento, apoio ou recuo.
- Nos moldes atuais, com jogadores ofensivos e sustentação no meio, os meio-campistas precisam dominar a varredura para ativar os movimentos de profundidade, controlar o ritmo e evitar pressão ou perda de bola.
- Treino sugerido: numa sessão de “saida de bola com progressão”, materializar uma exigência: “antes de receber, mínimo 3 varreduras nos últimos 5 s”, e se não cumprir, receberá a bola somente via passe lateral.
Atacantes (Ponta e Centro-avante)
O estudo mostra que atacantes escaneiam menos que os jogadores de meio ou defesa.
- Apesar disso, para atacantes modernos (em um modelo ofensivo que explora espaço e ruptura), a varredura é fundamental: entender posicionamento dos defensores, cobertura, movimento de apoio, atração de linha ou segundo poste.
- Um atacante que escaneia bem terá mais chance de receber em melhores condições, fazer movimentos de ruptura no momento certo, e selecionar quando pressionar, quando recuar, ou quando se oferecer para suporte.
- Treino sugerido: em situações ofensivas finais (zona de ataque), antes de receber, o atacante realiza varredura de pelo menos 1–2 vezes em 3 s, identificando se o passe de ruptura está livre ou se deve tirar vantagem de apoio curto.
Tópico 3: A importância para a Equipe como um Todo
Além da aplicação individual por posição, a varredura — e a cultura de escanear — traz benefícios para o coletivo e deve ser integrada ao modelo de jogo.
- Redução de perdas de bola e aumento de qualidade de passe O estudo correlacionou varredura com maior probabilidade de passe completado. Em equipe, se todos escanearem, haverá menos decisões precipitadas, menos passes errados e mais transições bem-sucedidas.
- Melhor tomada de decisão e antecipação coletiva Quando todos os jogadores escaneiam, a equipe antecipa melhor o adversário, melhora a cobertura defensiva, melhora o apoio ofensivo e reduz o tempo de reação. Isso favorece equipes que jogam com pressão alta e ataque rápido.
- Modelo de jogo mais fluido e eficaz Em equipes orientadas para ruptura rápida e mobilidade (6 ofensivos / 4 sustentando), a informação antecipada gerada pela varredura permite que os apoios, os movimentos de profundidade e as jogadas de ruptura fluam melhor. Sem varredura, o risco é de ser reativo, lento, previsível.
- Desenvolvimento da consciência coletiva e da autonomia individual Treinar os jogadores para escanear cria hábitos cognitivos que promovem autonomia decisória. Isso reduz a necessidade de micro-direção e permite que o time se adapte fora de bola, em transição ou sob pressão.
- Cultura de atenção elevada e profissionalismo Um time que valoriza “olhar antes de receber” transmite uma cultura de atenção aos detalhes, foco competitivo e preparação.
Como implementar em seu contexto
Aqui estão passos práticos e sugestões, que se alinhadas ao seu modelo de jogo, poderão trazer bons resultados.
- Educar o time sobre o conceito Apresente aos jogadores o estudo, explique a varredura, mostre vídeos (ex: momentos de jogo onde “não olhou e perdeu bola” vs “olhou e abriu”); faça sessões de vídeo apresentando os scans visíveis.
- Inserir micro-tarefas no treino Em situações de treino de posse, transição ou saída de bola, condicione que, antes de receberem, os jogadores façam 1-3 varreduras visuais (“olhar por cima do ombro”) e se não fizerem, penalizar a ação (por exemplo: recebem sem poder progredir, apenas lateral).
- Mensurar e monitorar Use filmagem ou tracking simples para contabilizar quantas varreduras foram feitas ou não, e correlacione com passes completados, perdas de bola ou ações de penetração. Isso gera feedback visível e reforça a importância do comportamento.
- Diferenciar por posição Como visto, o volume de varreduras esperado varia por posição — meio-campistas e zagueiros talvez mais, alas e atacantes talvez menos, mas qualidade da varredura para todos. Ajuste as tarefas conforme a posição.
- Integrar no modelo de jogo
- No bloco alto/médio: varredura ajuda a antecipar segunda bola e saída de goleiro.
- No ataque objetivo: varredura pré-recepção permite o passe de ruptura ou apoio rápido.
- Em transições: antes de receber, o jogador já “vê” se o companheiro está entrando ou se o adversário está pressionando.
- Mentalidade e cultura Reforce que “olhar antes de receber” é um hábito profissional — não opcional. Crie lembretes visuais em sala, use micro-briefings antes do treino: “Quantas vezes você olhou por cima do ombro nos últimos 5 passes?”
Considerações finais
O estudo de Jordet et al. evidencia que a varredura é um componente cognitivo-perceptivo mensurável, relevante e aplicável no futebol de elite. Embora seu efeito individual seja pequeno em comparação a habilidade técnica ou contexto de passe — ele não é desprezível. Em uma perspectiva de alta performance, pequenas margens fazem a diferença.
Para você, como analista/técnico, incorporar esse tipo de comportamento individual em sua estrutura coletiva fortalece seu modelo de jogo, torna a tomada de decisão mais rápida, melhora a eficácia das ações de ruptura e saída, e eleva o nível da equipe.
Concluindo: Treinar os jogadores não apenas para executar, mas para ver, antecipar, decidir antes de receber a bola.
“O caminho é longo e a evolução é constante.”
Por: Roberto Torrecilhas
Resumo em Vídeo do Artigo:
Artigo na íntegra aos interessados:
https://www.frontiersin.org/journals/psychology/articles/10.3389/fpsyg.2020.553813/full
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