BeyondTheLines | A era da adaptabilidade CoachesMinds Talks

Quanto mais acompanho o futebol de alto nível, mais tenho a sensação de que estamos olhando para a pergunta errada.Falamos muito sobre quem é o melhor.Talvez devêssemos falar mais sobre quem consegue se adaptar melhor. Vivemos em constante mudança: jogo, adversário, contexto e diferentes competições..E aqueles que permanecem relevantes normalmente não são os que repetem as mesmas respostas. São os que conseguem encontrar novas soluções sem perder a própria essência.Pensando nisso, apresento este resumo do mais novo artigo do Beyond The Lines.O Futebol Não Premia os Melhores. Premia os Mais Adaptáveis.Uma reflexão sobre Copa do Mundo, equipes de futebol referência e sobre aquilo que talvez seja uma das competências mais valiosas do futebol moderno: a capacidade de evoluir enquanto se compete.

 

A qualidade importa. Mas raramente é suficiente. Em ambientes caóticos, vence quem consegue mudar sem perder a própria identidade.

Por Roberto Torrecilhas

 

Durante muito tempo fomos ensinados a olhar o futebol como se ele premiasse simplesmente os melhores. O elenco mais forte, o jogador mais talentoso, a equipe mais técnica, a seleção com mais nomes, o clube com mais recursos. Mas basta observar o jogo com um pouco mais de atenção para perceber que a realidade é mais complexa. As vitórias no futebol cada vez menos está quem tem mais qualidade ao ponto de vista das individualidades; e cada vez mais está premiando quem consegue responder melhor ao que o jogo pede em cada momento.

Essa talvez seja uma das grandes lições dos últimos tempos. A qualidade abre portas. A adaptação mantém essas portas abertas. Um jogador pode ser extraordinário em um contexto e comum em outro. Uma equipe pode dominar uma partida e se desestabilizar completamente na seguinte. Uma seleção pode ter mais talento, posse, nomes, e história, mas, ainda assim, sofrer quando o jogo sai do roteiro.

A Copa do Mundo torna isso ainda mais evidente. Menor tempo para correção, aumento do peso emocional, mudanças repentinas de adversários, e constante exigência de respostas diferentes, punindo com crueldade quem demora a compreender o novo cenário. Não há temporada longa para compensar. Não há dez jogos para ajustar. Às vezes, uma equipe precisa se transformar em vinte minutos. Às vezes, precisa mudar a forma de atacar sem perder segurança. Outras vezes, precisa aceitar que não conseguirá controlar tudo e que sobreviver ao caos também é parte da competição.

Em ambientes estáveis, vence quem executa melhor. Em ambientes instáveis, vence quem se adapta mais rápido sem perder coerência.

É por isso que o tema da adaptação é tão forte. Ele atravessa a tática, a técnica, a preparação, a liderança, a cultura e a própria formação do jogador. Adaptar-se não é improvisar de qualquer maneira, mas está em manter um eixo que sustente diferentes respostas.

Por que o futebol pede adaptação?

Porque o futebol não se repete. Essa é a primeira resposta. Nenhum jogo é igual ao outro. Nenhum adversário pressiona da mesma maneira, protege os mesmos espaços, reage emocionalmente da mesma forma ou oferece as mesmas vantagens. Mesmo quando duas equipes se enfrentam novamente, o jogo já não é o mesmo. O contexto mudou.  A confiança mudou. A necessidade mudou…

Luis Enrique nos diz muito sobre estes aspectos na coletiva abaixo:

 

O futebol é um ambiente de incerteza permanente. A bola muda de dono, a superioridade muda de lugar, o espaço aparece e desaparece, o tempo de decisão encurta. Uma equipe que não sabe adaptar-se fica presa à primeira ideia. E o jogo, quase sempre, exige a segunda, a terceira, a quarta.

Aproveitando está linha de pensamento, destaco o nível significativo que há na humildade do treinador em compreender que não controla tudo, e que o modelo de jogo é da equipe, e não dele; faz total diferença para o processo de desenvolvimento e formação de contexto positivo de uma equipe. Compreender que a imprevisibilidade dentro de um contexto organizado é de extrema importância para os jogadores criarem diferentes soluções criativas (a nível individual e coletivo) para solucionar os problemas do jogo, e ao mesmo tempo, terem uma base para se reorganizarem em caso de erros ou dúvidas (que são normais no decorrer do jogo).

 

Por isso, não basta ter um plano. É preciso ter princípios capazes de sobreviver à mudança do plano. Esse é o ponto. A adaptação de alto nível não é ausência de identidade. É identidade com elasticidade. Uma equipe adaptável sabe o que é, mas não precisa jogar sempre da mesma maneira para continuar sendo ela mesma.

 

 

Quando falamos de adaptação, falamos de uma qualidade coletiva que aparece em vários níveis: na capacidade do treinador de ajustar, na inteligência dos jogadores para ler o que mudou, na profundidade do elenco para responder a diferentes exigências, na cultura de treino que prepara o grupo para viver problemas reais e na maturidade emocional para não quebrar quando o jogo se afasta do ideal.

 

Observe a importância dos movimentos complementares para a fluidez das ações no jogo. Aqui o Ponta está pelo lado, e quem preenche o espaço interior é o Lateral Esquerdo. Não se trata de posições, mas sim do cumprimento de funções dentro do jogo. A capacidade de uma comissão técnica de relacionar competências individuais dentro de um todo coletivo é fundamental para a fluidez do jogo, e também, para que as relações aconteçam de forma mais orgânica possível. Como um maestro, o treinador vai adaptando e ajustando os contextos conforme as necessidades estratégicas e da evolução da equipe como um todo.

O melhor nem sempre é o mais preparado para mudar

Esse é um ponto delicado. Porque no futebol confundimos qualidade com garantia. Uma seleção com grandes nomes parece, antes do jogo, mais preparada para qualquer cenário. Mas o nome não resolve o problema se a equipe não sabe ajustar-se. O talento ajuda, mas o talento isolado não reorganiza uma pressão mal feita, não corrige uma distância coletiva, não transforma um bloco passivo em bloco agressivo, não muda o ritmo emocional de uma partida sozinho. Cada vez mais as soluções no jogo para que aconteçam, deve partir de ordem coletiva; juntos e coordenados, uma equipe abre e defende espaços, cada uma de forma única, mas muito eficiente.

Vamos relembrar a icônica conversa entre Luis Enrique e Mbappé?

 

A história do futebol está cheia de equipes excelentes que sofreram quando precisaram sair do roteiro. Tinham qualidade para dominar, mas pouca capacidade para reagir; Jogadores para criar, mas pouca estrutura para sustentar a criação; Tinham plano A forte, mas plano B pobre. Quantas histórias e recordações como estas estão acontecendo atualmente? Consegue relembrar de alguma?

No alto nível, quando o adversário consegue te retirar do teu primeiro conforto, ai sim começa o verdadeiro jogo.

 

A equipe adaptável é diferente. Ela não depende de uma única forma de vencer. Pode pressionar alto ou esperar. Pode atacar com posse ou transitar. Pode acelerar ou pausar. Pode sustentar amplitude ou aproximar. Pode proteger-se com bola ou proteger-se sem ela. Não significa fazer tudo de qualquer jeito ou ao mesmo tempo. Significa possuir repertório suficiente para que a identidade não morra quando o contexto muda e continue dando suporte para os problemas que o jogo apresenta.

A equipe forte impõe. A equipe adaptável impõe quando pode, ajusta quando precisa e sobrevive quando o jogo não permite controlar.

Esse é o tipo de inteligência que a Copa do Mundo costuma revelar. Em torneios curtos, não vence apenas quem joga melhor em condição ideal. Vence quem suporta jogos diferentes. Quem consegue competir em ambientes emocionalmente hostis. Quem aceita sofrer sem desorganizar. Quem muda sem se descaracterizar.

Exemplo recente, tivemos a final da Copa do mundo de Clubes, que trouxe lições importantes sobre estes aspectos!
Um Chelsea que se adaptou durante a competição e apresentou uma forma única contra seu oponente para o jogo final. Características fortes e marcantes de torneios desta característica. Perder um jogo não significa o fim. Mas deixam lições que se entendidas, podem gerar resultados grandiosos!

As seleções mais adaptáveis

Se eu tivesse que escolher uma seleção como referência recente de adaptação, eu começaria pela Argentina de Lionel Scaloni. Não porque sempre joga da mesma maneira, mas justamente pelo contrário. A Argentina campeã do mundo mostrou uma capacidade rara de mudar estrutura, altura, funções, relações e estratégia sem perder o eixo competitivo. Em 2022, foi uma seleção que alternou desenhos e comportamentos, ajustou-se a adversários diferentes e encontrou formas variadas de proteger Messi, competir sem bola e atacar os espaços certos. A final contra a França foi um forte indicador destes aspectos; O jogo de futebol não é só físico!

Exemplo em Jogo | Final Argentina x França 2022

A Argentina não venceu porque tinha uma única ideia brilhante. Venceu porque soube atravessar a competição aprendendo. Isso é muito forte. Depois da derrota inicial para a Arábia Saudita, a equipe não se desfez emocionalmente. Reorganizou-se. Mudou. Cresceu. Encontrou novas respostas. Mas manteve sua originalidade e confiou em suas qualidades

Scaloni: Não vamos mudar nossa maneira de jogar

 

Argentina de Scaloni: estruturas variáveis e adaptação durante a Copa

 

A Argentina  mantém princípios competitivos fortes, mas muda a forma conforme o adversário e o momento do jogo.

Marrocos também é um caso muito relevante. Em 2022, chegou à semifinal sem ter os melhores nomes do torneio. Mas tinha organização, leitura emocional, solidariedade, agressividade nos momentos certos, proteção de espaços, capacidade de sofrer e transições bem escolhidas. Não era uma equipe que tentava parecer maior do que era. Era uma equipe que compreendia o que precisava ser contra cada adversário.

Aspectos que ficaram visíveis no último amistoso realizado antes da primeira partida da Copa contra o Brasil:

Observação Marrocos

E isso, no futebol, é enorme. Muitas equipes perdem porque tentam jogar uma partida que não existe. Marrocos competiu muito bem porque aceitou a partida real. Soube reduzir forças adversárias, proteger zonas, correr quando precisava correr, baixar quando precisava baixar, atacar quando o jogo permitia. A adaptabilidade, ali, não estava em trocar radicalmente de modelo a cada jogo, mas em ajustar o comportamento coletivo às exigências concretas de cada duelo.

Marrocos: organização, disciplina e adaptação competitiva

Marrocos é uma seleção que transformou organização, identidade e leitura do adversário em vantagem competitiva, mesmo sem carregar o peso dos elencos mais favoritos.

A França também merece entrar nessa conversa. Pela profundidade individual, pela capacidade de acelerar transições, pela possibilidade de alternar momentos mais associativos com momentos verticais e pela naturalidade com que convive com diferentes tipos de jogo. A França muitas vezes não precisa dominar todos os momentos para ser perigosa. Isso também é adaptação: saber que pode vencer de maneiras diferentes.

Dizem que Mbappé não marca, que não retorna para marcar… mas o que ele pode acrescentar estando a frente?
A questão aqui não é seguir padrões, mas sim, ser funcional para uma realidade / cultura de jogo!!!

A Croácia, em outro perfil, talvez seja uma das seleções mais adaptáveis emocionalmente dos últimos ciclos. Não necessariamente pela variação estrutural mais ampla, mas pela capacidade de permanecer viva em jogos longos, controlar ritmos, sobreviver a momentos de pressão, levar partidas para zonas de resistência mental e competir em cenários onde outras equipes perdem clareza. Vide a eliminação do Brasil na Copa de 2020.

https://ge.globo.com/futebol/selecao-brasileira/noticia/2022/12/09/selecao-so-permite-um-chute-da-croacia-no-gol-e-e-eliminada.ghtml

Matéria do GE sobre o jogo Brasil x Croácia.

Volume muitas vezes pode dizer muito e já em outras, nada!!

E há seleções como Japão, que vêm construindo uma identidade interessante justamente pela capacidade de alternar agressividade, organização, transição e leitura de momentos. O Japão não é adaptável apenas porque corre muito. É adaptável porque tem jogadores habituados a diferentes contextos, com boa disciplina coletiva e coragem para ajustar alturas e comportamentos conforme a partida.

Para quem quiser aprofundar no tema, cito abaixo algumas seleções que gosto de observar!

01 Argentina

Melhor referência recente de adaptação em torneio curto: muda desenhos, funções e comportamentos sem perder competitividade emocional.

02 França

Repertório individual e coletivo para vencer com posse, transição, controle parcial ou explosão vertical.

03 Marrocos

Capacidade de adaptar-se ao adversário, proteger forças próprias e competir com enorme disciplina coletiva.

04 Croácia

Adaptação emocional e controle de ritmo: sabe sobreviver, alongar jogos e permanecer competitiva sob pressão.

05 Japão

Boa leitura de momentos, disciplina coletiva e alternância entre bloco, pressão e transição.

No recorte atual, olhando histórico recente, experiência de torneio, resposta a adversidades e capacidade de mudar durante a competição, eu diria que a Argentina ainda é a seleção mais adaptável. Mas Marrocos, pelo que já mostrou em 2022 e pelo próprio empate recente contra o Brasil na abertura da Copa, segue sendo uma das referências mais interessantes para discutir adaptabilidade competitiva no cenário de seleções.

PSG: a equipe mais adaptável do mundo?

Entre clubes, o PSG de Luis Enrique é provavelmente uma das equipes mais fortes do mundo nesse tema. E talvez seja, hoje, a melhor representação de adaptação no futebol de elite. Não porque faça tudo perfeitamente. Mas porque consegue mudar comportamentos mantendo uma identidade clara.

O PSG atual não depende apenas de uma estrela como centro absoluto. Essa é a grande transformação. Durante anos, o clube parecia reunir talentos enormes e tentar organizar-se ao redor deles. Hoje, a lógica parece mais coletiva. A equipe consegue pressionar com agressividade, circular com paciência, acelerar por fora, atacar profundidade, encontrar combinações curtas, alternar alturas defensivas e usar diferentes jogadores como protagonistas em diferentes momentos.

Recomendo muito assistir a este vídeo!!

A adaptabilidade do PSG não está em ser uma equipe sem forma. Pelo contrário. Está em ter forma suficiente para mudar sem quebrar. A estrutura oferece base. Os jogadores oferecem variação. Luis Enrique construiu uma equipe que pode controlar pelo passe, mas não depende apenas da posse; pode pressionar alto, mas também entende momentos de reorganização; pode atacar com amplitude, mas encontra zonas interiores; pode vencer dominando, mas também competir em cenários de transição e resiliência.

A Champions League de 2025, com a vitória por 5 a 0 sobre a Inter na final, foi um símbolo dessa transformação. O PSG tornou-se campeão europeu pela primeira vez com uma atuação marcada por pressão, domínio com bola, mobilidade e contundência coletiva. Em 2026, mesmo em outro tipo de final europeia, contra o Arsenal, o PSG voltou a demonstrar capacidade de competir em um roteiro diferente, vencendo nos pênaltis após empate.

PSG de Luis Enrique: adaptação, juventude, pressão e estrutura coletiva

O PSG de Luis Enrique é forte para este tema porque sua identidade não está presa a uma única forma de ganhar. A equipe tem princípios claros, mas respostas diferentes.

Para mim, essa é a frase-chave: o PSG não é adaptável porque muda por mudar. É adaptável porque sua mudança tem eixo. Há uma diferença enorme entre variabilidade e confusão. Equipes confusas mudam porque não sabem quem são. Equipes adaptáveis mudam porque sabem quem são e entendem que o contexto exige outra resposta.

O PSG de Luis Enrique parece caminhar muito mais para o segundo grupo. A equipe tem uma ideia coletiva forte, mas não parece escrava de uma coreografia única. Isso aproxima o time de uma visão mais contemporânea de alto rendimento: menos dependência de um plano fixo, mais capacidade de reorganizar relações dentro de princípios estáveis.

Brasil: qualidade suficiente, adaptação em construção

O Brasil tem qualidade suficiente. Isso não está em discussão. A questão talvez seja outra: o quanto conseguimos adaptar-nos quando o jogo nos obriga a sair do roteiro? O empate contra Marrocos na abertura da Copa de 2026 é um bom gatilho para essa reflexão. Marrocos começou melhor, saiu na frente e o Brasil cresceu depois, especialmente após ajustes e substituições que estabilizaram mais a equipe. O jogo terminou 1 a 1 e deixou uma sensação clara: há qualidade, mas o torneio vai exigir respostas mais rápidas e mais variadas.

Essa reflexão não precisa ser uma crítica destrutiva. Pelo contrário. Ela pode ser uma pergunta útil. O Brasil possui jogadores para acelerar, desequilibrar, associar, romper, controlar e decidir. Mas seleções não vencem apenas pelo acúmulo de soluções individuais. Vencem quando conseguem organizar essas soluções diante dos problemas reais do jogo.

A adaptabilidade brasileira precisa aparecer não só na troca de peças, mas na mudança de comportamentos coletivos.

Uma seleção adaptável não é aquela que troca o sistema a cada dificuldade. É aquela que percebe o problema e responde com repertório sem se fundir coletivamente. Às vezes, o ajuste é estrutural. Às vezes, é emocional. Às vezes, é de altura defensiva. Às vezes, é de ocupação dos corredores. Às vezes, é de ritmo. Às vezes, é simplesmente entender que o jogo pede pausa quando todos querem acelerar.

Para o Brasil, a pergunta não é se há talento. A pergunta é se o talento encontrará comportamentos coletivos suficientemente flexíveis para responder aos problemas da Copa.

Como se treina adaptação?

Essa é a parte mais importante para quem trabalha no campo. Adaptabilidade não se treina com discurso ou somente com feedback em vídeo. Treina-se criando ambientes em que o jogador precisa ler, ajustar, errar, corrigir e descobrir. Se o treino oferece sempre o mesmo tipo de problema, o jogador aprende a responder sempre do mesmo jeito. Se o treino é excessivamente controlado, ele pode até produzir execução limpa, mas não necessariamente produz inteligência adaptativa.

O papel dos constrangimentos bem desenhados em treino podem ampliar possibilidades. Uma regra diferente, um espaço modificado, uma superioridade, uma inferioridade, metas múltiplas, zonas condicionadas, tempo reduzido, pontuação específica, transições obrigatórias, variação de corredores ou mudanças durante a própria tarefa podem provocar novos comportamentos.

Recomendo a leitura de um de nossos artigos sobre este tema:
https://coachesminds.com/a-criatividade-nao-nasce-do-vazio/

Mas o ponto não é usar regras por usar. O ponto é criar problemas representativos. O treino precisa ter uma tensão real com o jogo. Precisa provocar leitura. Precisa exigir que o jogador reconheça o que mudou. Precisa fazer emergir comportamentos que não apareceriam em uma tarefa confortável demais.

Adaptar-se exige instabilidade. E muitos ambientes de treino ainda têm medo da instabilidade. Querem controlar tudo, corrigir tudo, antecipar tudo, explicar tudo. Mas o jogo não oferece esse conforto. O jogo muda enquanto acontece. Então o treino precisa, em alguma medida, ensinar o jogador a viver essa mudança.

Treino que reduz adaptação

Repetição sem problema, correção excessiva, medo do erro, baixa variabilidade e respostas muito fechadas.

Treino que amplia adaptação

Problemas vivos, restrições que gere descobertas de forma guiada, leitura de contexto, variação e liberdade orientada por princípios.

O treinador, nesse sentido, deixa de ser apenas alguém que ensina respostas. Passa a ser alguém que desenha ambientes.

O jogador adaptável

O jogador adaptável não é necessariamente o mais completo em termos tradicionais. É aquele que consegue permanecer útil diferentes contextos. Pode mudar de função sem perder qualidade. Pode jogar em alturas diferentes. Pode interpretar o jogo com e sem bola. Pode acelerar quando há espaço e pausar quando há pressão. Pode ser protagonista em um jogo e suporte no outro. Nem sempre igual, mas nem sempre diferente. Saber dosar a sua atuação conforme os problemas apresentados no jogo.

Messi é talvez o exemplo mais alto disso. Não apenas pelo talento, mas pela capacidade de continuar mudando. Foi extremo, falso nove, meia, organizador, finalizador, condutor, acelerador, pausa, referência emocional. Adaptou-se à idade, aos treinadores, aos companheiros, às seleções, aos clubes, às competições. Muitos jogadores tiveram qualidades específicas extraordinárias. Poucos conseguiram reorganizar a própria grandeza tantas vezes.

Modric é outro exemplo. Não venceu pela força física, pela explosão ou pela imposição atlética. Venceu porque leu o jogo em camadas. Adaptou-se a ritmos, contextos, sistemas e fases da carreira. Kroos, Iniesta, Busquets, Cristiano Ronaldo em outro perfil, todos mostram que permanecer no alto nível exige transformação. Quem não muda, fica preso à versão de si mesmo que um dia funcionou.

E isso vale também para o treinador. O treinador adaptável não abandona convicções a cada resultado. Mas também não transforma convicção em rigidez. Ele entende que princípios são profundos, mas estratégias precisam respirar. Sabe que uma ideia forte não precisa virar teimosia. Sabe que a realidade do jogo é uma conversa permanente com o modelo.

Permanecer relevante quando tudo muda

Para finalizar, penso que ao invés de se perguntar apenas quem é o melhor, talvez devêssemos perguntar quem consegue continuar sendo relevante quando tudo muda.

Quem consegue crescer depois de uma derrota?
Quem consegue abandonar uma resposta que já não serve?
Quem consegue aprender no meio da competição?

O futebol não acontece em ambientes ideais. Acontece em ambientes vivos. E ambientes vivos não recompensam necessariamente os mais fortes, os mais rápidos, os mais talentosos ou os mais preparados em teoria. Recompensam aqueles que conseguem continuar aprendendo enquanto competem.

Essa é uma lição para seleções, clubes, treinadores e jogadores.

Não basta ter modelo. É preciso fazer o modelo conversar com o contexto de forma coletiva.
Não basta ter talento. É preciso dar ao talento uma estrutura flexível para que ele solucione aos problemas reais do jogo.

Cada vez mais o futebol tem premiado aqueles que conseguiram continuar adaptando-se sem perder a própria essência. Que aprenderam novas funções. Que sobreviveram a novos cenários. Que encontraram novas soluções para problemas antigos. Os que continuaram crescendo quando já pareciam prontos…

Assim como na vida, a única forma de permanecer competitivo em um ambiente vivo é continuar adaptando-se.

A qualidade importa. Sempre importará. Mas no futebol de elite, qualidade sem adaptação pode virar promessa incompleta. A adaptação é o elo final que permite que a qualidade sobreviva ao caos. É ela quem transforma talento em permanência, modelo em organismo vivo e competição em aprendizagem contínua.

Referências e materiais de apoio

  1. Reuters. “Morocco expose Brazil flaws but settle for draw in World Cup heavyweight clash.” 14 jun. 2026.
  2. Coaches’ Voice. “PSG 5 Inter 0: Champions League final tactical analysis.” 1 jun. 2025.
  3. UEFA. “Champions League Performance Insights: Paris pressing and domination.” 2025.
  4. Coaches’ Voice. “PSG 1 Arsenal 1 (4-3 pens): Champions League final tactical analysis.” 31 maio 2026.
  5. The Mastermind Site. “Lionel Scaloni – Argentina – Tactical Analysis – World Cup 2022.” 16 dez. 2022.
  6. Torrents, Carlota. “La paradoja de la creatividad aplicada al deporte.” Palestra disponível no YouTube.
  7. Davids, Keith; Button, Chris; Bennett, Simon. Dynamics of Skill Acquisition: A Constraints-Led Approach. Human Kinetics.
  8. Newell, Karl M. “Constraints on the development of coordination.” 1986.

 

Resumo em vídeo:

Material em PDF:


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