BeyondTheLines | A Mobilidade Posicional no Futebol – CoachesMinds Talks
Mobilidade Posicional: quando o jogador e equipe entendem o jogo… e não somente posições
O futebol moderno pertence aos atletas que leem o jogo, e cada vez menos aos especialistas de momentos isolados.
1. A posição virou ponto de partida
Quando observamos equipes modernas, percebemos que o desenho inicial dura poucos segundos. Depois disso, o jogo começa a se mover.
O lateral pode virar médio, o meia pode baixar na base, o extremo pode atacar por dentro.
Não é improviso, é a leitura e adaptação ao cenário caótico do jogo.
Um exemplo clássico é o dos laterais interiores:
Conceito de lateral interior (inverted full-back):
Quando João Cancelo ou Zinchenko entram por dentro, não estão “saindo da posição”. Estão reajustando os espaços que o jogo pede naquele momento, que envolve muito conhecimento coletivo, aspectos socioafetivos e dinâmicas bem construídas por parte da comissão técnica da equipe.
2. Espaço antes da função
O futebol é um jogo de espaço e tempo.
Entender isso amplia a percepção de que certas situações aparecem naturalmente, e conhecer destes momentos é importante, pois o treinador otimiza os processos de treino, fornecendo os ajustes necessários e trabalhando as dinâmicas que necessitam ser reforçadas, para que de um comportamento isolado ou momentâneo se torne um padrão, dando fluidez ao jogo da equipe.
Florian Wirtz e Vitinha por exemplo, não jogam presos a um setor ou região / momento específico.
Flutuam entrelinhas, aparecem onde o jogo cria vantagem e conecta o ataque. Estão o tempo todo se reajustando e regulando a altura posicional para fornecer linhas de passe e estarem regulados na melhor distância possível para executar a ação ofensiva da forma mais vantajosa possível.
Liberdade posicional de Florian Wirtz:
Inteligência posicional de Vitinha:
3. Mobilidade gera dúvida no adversário
Quando um jogador muda de zona com intenção, a defesa adversária precisa decidir entre acompanhar ou manter a estrutura.
E no futebol moderno, gerar dúvida já é criar vantagem.
Olha o que acontece com Bellingham:
ele começa muitas jogadas como meio-campista e termina como atacante. Aqui temos um claro exemplo de liberdade posicional no setor / corredor. Uma forma mais equilibrada para gerar estes comportamentos.
Liberdade posicional no setor Jude Bellingham:
A mobilidade dele obriga a linha defensiva a reajustar o tempo todo.
Isso abre espaço para o resto da equipe.
4. As diferentes visões sobre a mobilidade. O jogo “aposicional” e o Relacionismo
Relacionismo no futebol é um método de compreensão e treinamento do jogo que prioriza as interações entre os jogadores e o espaço em vez de posições fixas ou esquemas táticos tradicionais (como 4-3-3 ou 4-4-2). O foco está nas relações dinâmicas que se formam a cada momento: as distâncias entre atletas, os apoios mútuos, as coberturas defensivas, a formação de triângulos e losangos, as linhas de passe disponíveis, as trocas de função e a coordenação coletiva do time.
Na prática, o relacionismo convida a pensar: “quem se relaciona com quem, onde, a que distância e com que intenção?”, substituindo a visão estática de “quem joga em qual setor” por uma perspectiva mais fluida e estratégica, que valoriza a movimentação, a comunicação e a inteligência coletiva dentro do campo.
O Relacionismo:
Nos últimos anos observamos algumas novas visões de futebol, e uma que atraiu os olhares de todo o mundo foi o futebol apresentado pelas equipes de Fernando Diniz. Mais recente, a equipe do Fluminense, campeã da Libertadores e Recopa.
Com menos apego com as posições e muita fluidez ofensiva, deixou um legado para o mundo, chegando à final do Mundial de Clubes da Fifa, de forma muito original e corajosa, tendo momentos emblemáticos no decorrer da partida, levando o técnico Pep Guardiola a dizer: “O Fluminense joga como o Brasil de 70”.
Algumas características interessantes:
O carrossel:
Saídas curtas:
5. Mobilidade não é liberdade total. É responsabilidade coletiva
Existe um erro comum quando se fala desse tema:
achar que todo mundo pode fazer tudo ao mesmo tempo.
Não.
Se um jogador sai de uma zona, alguém ocupa. Se um aproxima, outro dá profundidade. Movimentos complementares são importantes para manter o equilibrio e fluidez.
Mobilidade sem compensação vira caos. Implica na perda da fluidez do jogo e desequilibrio, refletindo nas transições e processo defensivo.
Por isso o treino precisa desenvolver percepção e comunicação implícita. Os jogadores começam a entender o que o companheiro vai fazer antes da ação acontecer.
6. O papel do treino: formar jogadores que pensam o jogo
Desenvolver estes processos, solicita ambientes que forneçam o atleta a interpretar o espaço e o contexto em que o jogo se encontra.
Treinos com múltiplas soluções ensinam:
- • quando ocupar o centro;
- • quando abrir largura;
- • quando fixar para liberar o outro;
- • quando atacar profundidade.
- • quando manter-se mais posicional.
- • quando não participar ativamente de uma ação, para receber um passe de 2o ou 3o homem.
No fundo, estamos falando menos de técnica isolada e mais de inteligência de leitura individual e coletiva.
Para finalizar
Penso que o jogador do futuro não será aquele que deva jogar em três posições. Mas acredito que sim, ele deverá entender o jogo ao ponto de reconhecer qualquer espaço como uma oportunidade, sendo aqui a capacidade de interpretar e reconhecer os espaços em diferentes circunstancias e momentos do jogo a mudança chave deste processo.
Assim, como treinadores, deixamos de perguntar mais sobre:
“qual a posição dele?”
E passamos a buscar entender:
“como ele ajuda o time a controlar o jogo?”
A evolução no futebol moderno não está a busca de especialistas de setor ou momentos isolados do jogo.
Procura sim, especialistas em entender o jogo.
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