BeyondTheLines | PT1 O Técnico 2.0 – Os Treinadores do Futuro CoachesMinds Talks

Resumo em vídeo de nosso último artigo no CoachesMinds.comOnde discutimos a metamorfose do futebol contemporâneo, focando na transição para a figura do "Técnico 2.0" em um cenário dominado por dados e algoritmos. O ponto principal é o alerta para o risco de desumanização e robotização do esporte, onde a busca obsessiva pela eficiência métrica pode sufocar a criatividade e as relações interpessoais. Argumenta-se que o treinador do futuro deve atuar como um gestor de contextos, equilibrando o suporte tecnológico com a sensibilidade necessária para lidar com a natureza caótica do jogo. Além disso, a obra critica a padronização tática excessiva e a importação de modelos estrangeiros que descaracterizam identidades culturais, como a do futebol brasileiro. Em suma, o conteúdo defende que a essência humana e o improviso continuam sendo os elementos vitais que nenhuma inteligência artificial pode substituir plenamente.

PT1. O Técnico 2.0 – Os Treinadores do Futuro

Entre dados, algoritmos e humanidade: o quem tudo isso tem influenciado no jogo?

O futebol está vivendo uma transformação silenciosa. Não é apenas no que rege a tática ou a parte física. É cultural, e em situações mais extremistas, tem chegado ao ponto de pensar que é a substituição da mente humana. Estamos falando da crescente por parte da IA e seus poderosos “chats”, facilitam por um lado, mas ao mesmo tempo amplia a preguiça mental, limitação criativa e perda da sensibilidade das relações humanas.

Na busca incessável do ser humano visando a eliminação dos erros e extrema eficiência, perdeu-se as relações, a empatia, o calor, a criatividade e o entender de que uma equipe de futebol é um conjunto de seres relacionando-se em prol de um objetivo comum, e comportamentos robotizados, rigidez e soluções engessadas, estão longe de estar próximas do entender que a equipe é um sistema vivo, reagindo e adaptando-se ao caos que é o jogo.

O treinador do futuro já não é apenas o estrategista , ou quem controla e dá as coordenadas de uma equipe. Ele é gestor de informação, líder emocional, analista de sistemas, intérprete de dados, um gerador de contextos, responsável pela cultura coletiva, do “nosso jogar”. Quase como um CEO, responsável por coordenar e desenvolver os profissionais de dentro e fora das 4 linhas. Relaciona-se com diversos setores, e com inteligência, gera um ambiente de desenvolvimento e crescimento mútuo, sabendo que não controla tudo, não é detentor de toda a inteligência e que dentro desta cultura, destaca-se a importância de todos os seus integrantes se sentirem parte essêncial desta comunidade.

Mas no meio dessa evolução surge uma pergunta incômoda: até que ponto estamos evoluindo, ou nos aproximando de um ambiente desumanizado? Vivemos em um momento crucial, de frieza, reaparecimento de guerras, extremismo, centralização das informações, protecionismo, irritabilidade aos questionamentos e pouco ou nenhum interesse aos diferentes pensamentos, tratando qualquer opinião contrária como ataque. Aqui se observa o peso das culturas, da influência do momento de mundo em que estamos vivendo.

1. Ao mesmo tempo, alguns movimentos nadam contra a maré “robotização” e outros estão descobrindo os caminhos.

Luis Enrique já declarou que gosta de assistir treinos e jogos da arquibancada ou até de andaimes improvisados. A justificativa é simples: ver melhor o jogo. Entender o todo deste sistema caótico.

Do alto, o treinador enxerga distâncias, relações entre linhas, movimentos simultâneos. A perspectiva muda, e com ela, a leitura.

Luis Enrique sobre controle e leitura do jogo:

Mas há algo ainda mais profundo em suas entrevistas. Ele mesmo admite, de forma crítica construtiva com a visão limitante, protecionista e vezes egocentrista dos treinadores: “Disse em um documentário que controlaria tudo… mas pela grandeza do PSG, cada vez controlo menos. Quanto menos controlo, menos o adversário irá saber o que faremos. Como treinador, sair da zona de conforto e protecionismo, para controlar menos e tornar as coisas imprevisíveis”

Esse é o paradoxo do técnico moderno. Quanto mais dados temos, mais se pensa ter o controle das coisas e mais se tenta gerar um ambiente controlado. Mas aqui se ignora um fator importante do jogo, que é a imprevisibilidade.

2. Inteligência Artificial e o medo da substituição

Recentemente, o debate sobre treinadores utilizando inteligência artificial levantou questionamentos sobre autonomia e autoria. Como o caso da demissão do técnico espanhol Robert Moreno de uma equipe Russa, que segundo o dirigente responsável afirmar que o mesmo utilizava um chat de IA para produzir todo o seu conteúdo de trabalho.

Ex-técnico da Espanha é demitido na Rússia após usar demais a IA (UOL)

Não se trata de usar tecnologia. Isso já é inevitável, e um processo importante para se otimizar os trabalhos e se obter melhores soluções com a análise adequada. A questão é: o treinador usa a ferramenta ou a ferramenta passa a usar o treinador? onde se encontram as relações? a criatividade? a sensação de pertencimento? o entender dos seres humanos envolvidos no processo?

Se o algoritmo sugere ajustes, organiza relatórios e aponta padrões, onde entra a sensibilidade? onde entra o feeling do jogo? Aqui entra o real problema, a desumanização, a robotização e principalmente ignorar a essência humana e suas relações.

Fortes reflexões sobre nosso momento atual:

O Técnico 2.0 precisa saber filtrar. Tecnologia amplia a visão, otimiza os processos, mas não substitui a interpretação.

3. Eficiência x Qualidade

Vivemos a era da métrica. xG, PPDA, metros percorridos, heat maps. Tudo quantificado.

Mas a ciência das quantidades não substitui a ciência das qualidades.

Um drible que quebra linha não cabe apenas em um número, não se pode resumir somente a um número… hoje há a necessidade de tudo ter de ser pesado. Mas e a energia da ação? a beleza com o espetáculo? sua ligação sentimental com o torcedor que se emociona? e a relação com arte, a importância das diferenças e enaltecer da criatividade? A ação individual que desorganiza mentalmente o adversário não aparece em uma planilha. Não se quantifica a confiança, o sentir-se parte criativa, participe da construção dos processos e o reconhecimento por parte de sua comunidade.

O dia que o Bernabéu se rendeu a Ronaldinho:

Eficiência é fundamental. Mas a criatividade gera algo que estatística nenhuma explica: desequilíbrio emocional no adversário, e no caso do Ronaldinho, o aplauso da torcida adversária.

4. Método cartesiano, Edgard Morin e o futebol industrializado

O método cartesiano separa para entender. Divide o todo em partes. Analisa de forma isola. Acreditava-se que especializar-se em partes, traria um todo que se somado, teria um valor ainda maior.

Edgar Morin propõe o contrário: pensar o sistema como um conjunto interligado. Onde o todo é maior que a soma de suas partes. Aqui a importância das relações. Quantos atletas ou equipes não foram amplificadas pelo ambiente em que vivem?

No futebol, quando fragmentamos demais… preparador físico de um lado, analista de outro, treinador isolado da base, departamentos desconectados, criamos um jogo sem alma. Como uma linha de produção que não faz ideia de o que está produzindo. Ninguém se sente parte do processo, ou integrante de uma comunidade, de uma cultura.

Industrializamos o atleta. Esfriamos as relações. Separamos a inteligência e a criatividade.

E talvez este seja o maior risco do Técnico 2.0: perder a humanidade em nome da eficiência.

5. A limitação e padronização no perfil dos atletas. O jogo mudou ou novos preconceitos estão gerando exclusão?

Na última Copa do Mundo tivemos uma importante discussão. Estamos no mundo dos volumes, e aqui se mostrou um aspecto importante e de destaque nas prioridades que estão deturpando a visão do jogo e aquecendo ainda mais os debates volume x qualidade. Um estudo do Dr. Paul S. Bradley apontou alguns importantes resultados, mas reforçou um importante aspecto: “correr mais” não se associa diretamente a vencer. As seleções campeãs e os principais atletas do mundial, foram os que menos tiveram associados aos maiores volumes em distâncias de alta intensidade e sprint, e aqui está o fator principal. O mais importante não é quem corre mais, e sim, o momento adequado para correr. Gestionar energia e utiliza-la de forma inteligente. Ao mesmo ponto, podemos pensar em um volante com alto volume e intensidade em seus deslocamentos, porém, alcança esses valores por que tem baixa eficácia em suas ações defensivas, de uma sequência grande de ações sem sucesso, mas com alto vigor físico gera a impressão de “estar em todos os lugares do campo”. Ao mesmo tempo, podemos ter um volante mais candenciado, porem com melhor gestão espacial e técnica defensiva, desloca menos, porém age no momento necessário, refletindo em sua eficácia nas ações. Quem aqui realmente está melhor se relacionando com o jogo?

Limitar o jogo somente ao volume e métricas foge totalmente de sua natureza que é imprevisível e caótica.

Acesse o artigo “A contextualised physical analysis of the FIFA World Cup Qatar 2022” (FIFA Training Centre)

6. Guardiola, padronização e o debate sobre criatividade

Uma matéria recente do The Times questionou se o impacto de Guardiola acabou padronizando o jogo moderno. Por aqui é possível acompanhar está matéria na integra: How Pep Guardiola and data destroyed game’s beautiful variety (The Times)

A crítica não é sobre sua genialidade, ou forma única de trabalhar as suas equipes, mas sobre como muitos copiaram o modelo sem compreender o contexto.

Messi sobre as tentativas de cópia ao jogo de Guardiola:

O resultado? Menos improviso. Menos drible. Menos desequilíbrio individual.

Copiar o modelo sem entender o princípio gera engessamento. E futebol engessado perde beleza. E muitas das vezes, não se relaciona com uma cultura, não tem vida, perde sua energia e essência. Ninguém se reconhece ou faz parte desta cultura, que tenta ser gerada de forma “artificial”

7. O futebol brasileiro e a perda de identidade

O Brasil sempre foi sinônimo de criatividade. Drible. Improviso. Alegria.

O futebol Brasileiro tem perdido sua relação com a cultura e relação com o seu povo e essência?

Ao importar modelos europeus sem adaptação cultural, corremos o risco de sufocar aquilo que nos diferencia, a energia, essência, aquilo que sempre foi o maior diferêncial ao longo das épocas e que marcou o nome do Brasil como o País do Futebol.

Não se trata de rejeitar os métodos. Trata-se de saber que os métodos e identidade não devem estar separados.

8. Refletindo sobre o Técnico 2.0

Penso que o treinador do futuro não será o que controla tudo. Será o que entende o que pode, e o que não pode controlar. Um gerador de contextos, amplificador da cultura de uma equipe e que ajude os integrantes desta comunidade e alcançarem as suas melhores versões.

Porque no fim, o jogo continua sendo feito por pessoas. Seres humanos que vivem do futebol, onde as suas interações com o mundo e a sociedade tornou quem eles são.

Por: Roberto Torrecilhas


Vídeo Resumo do Artigo


2 respostas para “O Técnico 2.0 – Os Treinadores do Futuro (PARTE 1)”

  1. Avatar de read more

    Very descriptive blog, I enjoyed that a lot. Will there be a part 2?

    1. Avatar de mrtorrecilhas

      Hi there, it’s great to have you here. We already have Part 2; here’s the link so you can check it out. Take care!

      https://coachesminds.com/o-tecnico-2-0-parte-2/

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *